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Notícias gerais › 06/07/2019

Convivi com uma santa nascida no Brasil: Irmã Dulce

 

A baiana Irmã Dulce acaba de ser reconhecida pela Igreja Católica como Santa, no nível de Santo Antônio (seu Patrono), Santa Terezinha ou mesmo o fantástico São Francisco.

Será o primeiro Santo nascido no Brasil. Foi perseguida durante anos pelo Vaticano, mas agora reconhecida. Nunca teve mágoas por isso.

Desde a sua morte, em 1992, aos 77 anos, os baianos citam milagres atribuídos a ela: curou portadores de graves doenças, os quais rezaram em memória da religiosa. Tudo impossível de explicar por médicos e seus exames.

Há um cego, com diagnóstico presente, que de forma surpreendente enxerga. Isso acaba de ser demonstrado na Globo. Como? Como? Como?

O médico entrevistado riu e disse: “Ele é cego”. Mas vê.

E muitas outras pessoas continuarão pedindo a sua ajuda, agora com fé ampliada.

Nós, baianos, temos Irmã Dulce para zelar pelas nossas famílias. E o Brasil também terá esta proteção para sempre.

O maior milagre da minúscula Irmã Dulce é a própria existência. Durante muitas décadas, atendeu milhões de brasileiros nas obras sociais, embora fosse portadora de grave deficiência respiratória.

Foi desenganada pela Medicina muitas décadas antes de falecer, mas nunca parou de trabalhar. Deus lhe dava forças contra tudo, lutando contra as perseguições do Estado e da Igreja.

É exemplo de caridade para o mundo.

Tive o privilégio de acompanhar a trajetória de Irmã Dulce desde que nasci, vizinho que fui da sua instituição, no bairro de Roma, em Salvador.

E aqui faço relatos pessoais que ajudam a conhecer um dos seres mais incríveis da humanidade, em todos os tempos. Foi uma santa sem barreiras religiosas, que reconhecia os outros cultos e tinha carinho pelas religiões afro-brasileiras.

Desde criança, ela já era Irmã Dulce

O chamado “anjo bom da Bahia” nasceu numa família influente da Bahia, com o nome de Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes. Nobre!

Era filha de Dona Dulce Maria (de quem assumiu o nome “Irmã Dulce”), e do Doutor Augusto Lopes Pontes, dentista e professor da Universidade Federal da Bahia.

Muito antes da modernidade, o pai dela já circulava em carro próprio pelas ruas de Salvador. Como vemos, a garota abandonou uma vida de amplo conforto para sofrer junto com os pobres.

Na juventude, ela lotava a casa dos pais, no tradicional bairro de Nazaré, em Salvador, acolhendo doentes.

Ao longo das décadas, ajudou a criar várias instituições filantrópicas. Uma das mais famosas é o Hospital Santo Antônio, que atende milhares de pessoas por dia e que hoje passa por dificuldades.

Começou a trabalhar com apenas 13 anos

Desde os 13 anos, ao visitar áreas carentes com uma tia, já pensava em seguir a carreira religiosa. Sentia o apelo de Deus.

Em 1933, após se formar professora primária (1932), Maria Rita entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em Sergipe. Tinha 19 anos.

Em 1934, passou a trabalhar em Salvador, para dar aulas. Em 1936, com apenas 22 anos, fundou com Frei Hildebrando Kruthanp a União Operária São Francisco, primeiro movimento cristão operário da Bahia.

No ano seguinte, sempre com Frei Hildebrando, criou o Círculo Operário da Bahia, mantido com a arrecadação de três cinemas que ambos haviam construído através de doações.

Em maio de 1939, Irmã Dulce inaugurou o Colégio Santo Antônio, voltado para os operários e seus filhos.

No mesmo ano, para abrigar doentes que recolhia nas ruas, invadiu cinco casas na Ilha do Rato, em Salvador. Depois de ser expulsa, teve de peregrinar durante dez anos, instalando os doentes em vários lugares.

(…)

Atendimentos feitos em diversas especialidades

O Hospital Santo Antônio oferece gratuitamente atendimento médico, com especialização geriátrica, cirúrgica, hospital infantil, centro de atendimento e tratamento de alcoolismo, clínica feminina, unidade de coleta e transfusão de sangue, laboratórios e um centro de reabilitação e prevenção de deficiências.

Irmã Dulce também criou o Centro Educacional Santo Antônio, na cidade de Simões Filho, que abriga centenas de crianças de 3 a 17 anos.

Durante mais de cinquenta anos, ela deu exemplo de fé e dedicação ao mundo, falando pouco e realizando muito. Tinha grande prestígio e sempre pressionou os sucessivos governadores e prefeitos a olharem pelo povo.

Nenhum político recusava-se a atender um telefonema de Irmã Dulce, que lidava com todos, de todos os partidos, sem discriminação nem julgamentos.

Fica no ar a frase que resume seu pensamento: “Miséria é a falta de amor entre os homens”.

Ela dizia que o amor supera todos os obstáculos, todos os sacrifícios. “Por mais que fizermos, tudo é pouco diante do que Deus faz por nós.

Este depoimento pessoal ajuda a conhecer a santa

Cresci no bairro de Roma, pertinho da Irmã Dulce. Na década de 50, a pequena freira já era famosa por abrigar miseráveis no galinheiro do convento. Foi o verdadeiro mito da minha infância, rivalizando com os super-herois das histórias em quadrinho.

Vi muitas vezes ela nas ruas de Salvador – impecável no seu hábito, falando bem baixinho, com um quase não-riso na boca.

Quando criança, ouvi os adultos falarem do incêndio de um ônibus na Cidade Baixa de Salvador, onde morreram dezenas de passageiros.

Muitos escaparam graças a Irmã Dulce. Apoiada por outras freirinhas frágeis, ela arriscou a vida, quebrando as janelas do ônibus com tijolos e puxando as pessoas em fogo. Isso fortaleceu a sua imagem.

Nos primeiros anos de trabalho, a freira ia pessoalmente às feiras e às ruas pedir doações, sempre usando a roupa pesada. O manto azul e branco mantinha a cabeça coberta naquele calor baiano.

Nunca se separou do hábito de algodão grosso, nem mesmo quando foi expulsa da Ordem religiosa por monstruosos bispos que dominavam a Igreja Católica na Bahia (Dom Eugênio Sales é denunciado frontalmente no filme “Irmã Dulce”).

Ela sofreu muito para se impor. Numa caminhada pela Feira de Água de Meninos, Irmã Dulce aproximou-se de um vendedor enorme e grosseiro.

Ela estendeu o braço e pediu ajuda para os pobres. No filme “Irmã Dulce” isso é bem mostrado: o cara encheu a boca de saliva e cuspiu forte na pequena palma de mão da Santa.

Impassível, Irmã Dulce limpou a mão direita na cintura, estendeu firme a mão esquerda e disse:

-Esta doação foi para mim. Agora, o que você vai dar para os meus pobres?

Assim construiu um império divino.

Nunca faltou vaga no hospital da Irmã Dulce. Num dia de muita agitação, aproximou-se um colaborador voluntário, aflito, e disse para a superfreirinha: “Irmã, irmã, não cabe mais ninguém!”.

Resposta: “Ocupe o meu quarto” – e saiu andando tranquilamente. Isso aconteceu diversas vezes.

Conheci Irmã Dulce no armazém do meu pai

Na década de 60, meu pai tinha um grande armazém atacadista na Cidade Baixa de Salvador. Irmã Dulce, ainda iniciante no seu ofício, aparecia de repente por lá, numa Kombi velha. Vinha sempre acompanhada de dois típicos negões baianos, bem fortes.

Os três entravam escondidos no armazém e saíam com cargas pesadas, literalmente roubadas. Sacos de feijão ou de farinha. Ela tinha preferência pelas caixas de leite Ninho, com 24 latas. Era um verdadeiro assalto, assistido por mim algumas vezes.

Vi meu pai protestar, dizendo forte: “Irmã, assim você vai me quebrar”. Já se esgueirando, de saída, ela gritou de longe: “Deus vai lhe dar em dobro”. Deu mesmo, felicidade em dobro.

A freirinha de quase 1m40 continuou saqueando armazéns para alimentar seus pobres. Enfrentava a ira dos comerciantes, que escondiam as mercadorias mais valiosas.

Os negociantes não podiam reagir, porque ela já era a famosa Irmã Dulce, que superou governos, desafiou a poderosa Igreja Católica e montou um centro de atendimento para miseráveis.

O encontro da freira com Cecília Riella

Na década de 70, numa dessas investidas clandestinas, Irmã Dulce viu no armazém a minha mãe Cecília. Ela era muito atraente (12 anos mais nova do que meu pai).

A incrível freira interrompeu a fuga com os dois carregadores. Chegando perto, perguntou com firmeza a meu pai: “Seu Agenor, quem é esta moça bonita?” Sem dar intimidade, meio durão, meu pai respondeu: “Esta é Cecília, minha mulher, mãe dos meus filhos”.

Ignorando a presença do dono do armazém, que a Irmã havia enfrentado durante anos, pegou as mãos da jovem mãe e falou: “Cecília, você está convidada para conhecer meu hospital. Faço questão de lhe mostrar pessoalmente tudo o que fazemos pelos pobres”.

Agenor foi obrigado a visitar o Hospital Santo Antônio, no bairro de Roma, em Salvador. A instituição ainda tinha instalações precárias. Nessa noite, Irmã Dulce conduziu Cecília Riella pela mão, como se leva uma criança.

Saíram as duas de ala em ala, vendo a miséria muito bem abrigada, graças às “doações” de Agenor e de outros baianos quase ricos.

Num devido momento, Cecília foi conduzida a um lugar mais reservado. Irmã Dulce mostrou-lhe uma grande cadeira de encosto e explicou: “É aqui que eu durmo um pouquinho de noite” – e riu baixinho, sacudindo a roupa branca e o manto, sempre impecáveis.

A freira enfrentou grave deficiência pulmonar durante mais de 40 anos – e sobrevivia por milagre. Contou à minha mãe que quase não comia. Se alimentava de pequenas porções (biscoitos, café com leite). Dava rápidas cochiladas no cadeirão, pois ficava sufocada se deitasse em uma cama.

Como quase não dormia, passava as noites visitando os internos, a quem proporcionava carinho físico: longos abraços, apertos de mão e palavras santas. Muitos morreram abraçados com ela, a caminho de Deus.

O acordo do armazém com a irmã dos pobres

Na visita ao Hospital, o pragmático Agenor Riella propôs um pacto, para que Irmã Dulce deixasse de assaltar seu armazém (Fonseca, Moreira e Cia. Ltda).

Negociaram de “homem pra homem”. Meu pai dispôs-se a doar sacos de feijão de 60kg. Ela disse que já tinha feijão demais. E comentou: “O senhor já comeu pão sem manteiga no café da manhã? Eu preciso de manteiga para os meus pobres”.

A freira esperta escolheu este item de extrema necessidade, de valor razoável, que meu pai passou a lhe doar constantemente. Algumas vezes acompanhei Agenor, carregando pessoalmente uma lata de dez quilos de manteiga Constelação, a mais cara da época.

Sem que meu pai soubesse, minha mãe passou a dar ajudas variadas, às vezes pedindo doações a outras pessoas.

É uma história real, não mostrada no filme. Ajuda a entender melhor esta Santa, que só podia ter surgido na sagrada Bahia de todos os santos e de todos os orixás.

Irmã Dulce demonstra como o mundo sobrevive diante de tantos desequilíbrios. Hoje, suas obras fazem mais de quatro milhões de atendimentos por ano.

Nunca falta vaga num hospital de Irmã Dulce!

Nem vaga no seu coração eterno.

Comentário final: na sua imensa humildade, ela certamente não quer ser chamada de Santa.

Continua sendo apenas a Irmã – uma grande irmã de 1m40.

 

Renato Riella

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