Neste ano jubilar, celebrando os 800 anos da Páscoa de São Francisco, somos convidados a refletir sobre as fragilidades do nosso tempo. Como escreve Jonathan Makila Nsenkey no artigo ‘Francisco de Assis e o Ano Jubilar Franciscano – Quando o passado interpela o presente’: “À medida que o mundo oscila entre conflitos persistentes, crise ecológica e uma busca quase obsessiva pelo sucesso material, uma figura do século XIII ressurge com uma força surpreendente: São Francisco de Assis. Oito séculos após a sua morte, a sua mensagem não parece ter envelhecido, nem sido superada. Muito pelo contrário, apresenta-se ainda hoje como uma resposta urgente aos desequilíbrios do nosso tempo.”
O Papa Francisco, em 2021, instituiu o 4º Domingo de julho como Dia Mundial dos Avós e idosos, motivado pela celebração do dia de São Joaquim e Sant’Ana, e viu a data como propícia para sensibilizar a sociedade e a igreja para a situação em que vivem os idosos e estimular o cuidado para com eles.
Quando o Papa Francisco criou o Dia Mundial dos Avós e Idosos, na mensagem que enviou lembra de Joaquim e Ana, diz: “o Senhor continua a enviar anjos para consolar a nossa solidão repetindo-nos: «Eu estou contigo todos os dias». Di-lo a ti, di-lo a mim, a todos. Está aqui o sentido deste Dia Mundial que eu quis celebrado pela primeira vez precisamente neste ano, depois dum longo isolamento e com uma retomada ainda lenta da vida social: oxalá cada avô, cada idoso, cada avó, cada idosa – especialmente quem dentre vós está mais sozinho – receba a visita de um anjo!”
Na sua homilia do dia 25 de julho de 2021, celebrando a I Jornada Mundial dos Avós, o Papa Francisco afirmou: “Tenho medo duma sociedade onde todos formamos uma multidão anônima e já não somos capazes de erguer os olhos e reconhecer-nos. Os avós, que alimentaram a nossa vida, hoje têm fome de nós: da nossa atenção, da nossa ternura; de nos sentir ao pé deles. Ergamos o olhar para eles, como Jesus faz conosco”.
Um dos temas recorrentes nas falas do Papa Francisco são os descartáveis, entre os quais os idosos. Na missa do I Dia Mundial dos Avós e Idosos, 25 de julho de 2021, o Papa Francisco disse: “Um pedaço de pão pode parecer insignificante, mas aos olhos de Deus nada deve ser descartado; e, com mais forte razão, ninguém deve ser descartado. É um convite profético que, hoje, somos chamados a fazer ressoar em nós e no mundo: recolhei, conservai cuidadosamente, guardai. Os avós e os idosos não são sobras de vida, desperdícios para deitar fora. Mas são aqueles preciosos pedaços de pão deixados na mesa da nossa vida, que ainda nos podem nutrir com uma fragrância que perdemos, «a fragrância da misericórdia e da memória».” No Dia Mundial dos Avós e Idosos de 23 de julho de 2023, na mensagem o Papa Francisco diz: “Os idosos entregam ao presente um passado necessário para construir o futuro. Honremo-los, não nos privemos da sua companhia nem os privemos da nossa. Não permitamos que sejam descartados”.
O envelhecimento deve ser uma preocupação do nosso século. José Eustáquio Diniz Alves no seu artigo, ‘O envelhecimento do envelhecimento no Brasil e no mundo’, nos apresenta o século XX marcado pela transição demográfica, isto é, pela redução das taxas de natalidade e mortalidade no mundo e na maioria dos países, provocando uma mudança na estrutura de idade, com redução da base e alargamento do topo da pirâmide etária, causando o envelhecimento populacional, no século XXI.

A população mundial está cada vez mais envelhecida. O número de pessoas com 60 anos ou mais, parâmetro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tem aumentado num ritmo acelerado por diversos fatores: a) diminuição da taxa de natalidade; b) baixa fecundidade (número de filhos por mulher); c) aumento da expectativa de vida. Os indicadores de mortalidade e de expectativa de vida estão diretamente atrelados às condições do sistema de saúde do território em que a população vive. Ambos são usados como parâmetros de análise para a composição de indicadores socioeconômicos e de desenvolvimento, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Historicamente o número de crianças sempre foi superior ao número de idosos, mas se espera que no Brasil o número de idosos ultrapasse ao de crianças já em 2030, enquanto no mundo só irá ocorrer em 2050.
Dentro dessa situação de envelhecimento do mundo não podemos pensar que não há mais espaço para realizar algo novo, que a aposentadoria já chegou. Deus sempre envia o seu mensageiro com novos convites. Não podemos perder a capacidade de sonhar. O Papa Francisco nos diz na mensagem do I Dia Mundial dos Avós e Idosos: “O próprio Jesus ouviu Nicodemos dirigir-lhe uma pergunta deste tipo: «Como pode um homem nascer, sendo velho?» (Jo 3, 4). Isso é possível – responde o Senhor –, abrindo o próprio coração à obra do Espírito Santo, que sopra onde quer. Com a liberdade que tem, o Espírito Santo move-se por toda a parte e faz aquilo que quer.” “Uma vez o profeta Joel pronunciou esta promessa: «Os vossos anciãos terão sonhos e os jovens terão visões» (3, 1). O futuro do mundo está nesta aliança entre os jovens e os idosos. Quem, senão os jovens, pode agarrar os sonhos dos idosos e levá-los por diante? Mas, para isso, é necessário continuar a sonhar: nos nossos sonhos de justiça, de paz, de solidariedade reside a possibilidade de os nossos jovens terem novas visões e, juntos, construirmos o futuro.” Nessa construção o Papa Francisco aponta três pilares: os sonhos, a memória e a oração.
O Papa Francisco no 2º Dia Mundial dos Avós e Idosos, 24 de julho de 2022, apresentou como tema: “Dão fruto mesmo na velhice”. Na sua mensagem para esse dia lembrou que muitas pessoas têm medo da velhice, que a consideram uma espécie de doença, que a ignoram, que as pessoas idosas não lhe dizem respeito, que devem estar em estruturas que cuidem delas e nos livrem da obrigação de nos ocuparmos com seus problemas. “Cultura do descarte”. “As sociedades mais desenvolvidas gastam muito para esta idade da vida, mas não ajudam a interpretá-la: proporcionam planos de assistência, mas não projetos de existência. Por isso é difícil olhar para o futuro e individuar um horizonte para onde tender. Por um lado, somos tentados a exorcizar a velhice, escondendo as rugas e fingindo ser sempre jovens, por outro parece que nada mais se pode fazer senão viver desiludidos, resignados a não ter mais «frutos para dar».” “Devemos vigiar sobre nós mesmos e aprender a viver uma velhice ativa, inclusive do ponto de vista espiritual, cultivando a nossa vida interior através da leitura assídua da Palavra de Deus, da oração diária, do recurso habitual aos Sacramentos e da participação na Liturgia. E, a par da relação com Deus, cultivemos as relações com os outros”.
Zulfikar Abbany da Deutsche Welle, num artigo intitulado ‘Porque depressão na 3ª idade costuma passar despercebida’, diz que o Pascal Schlechter, do Instituto de Psicologia da Universidade de Münster, na Alemanha, afirma que a saúde mental dos idosos é muito estigmatizada, sendo para algumas pessoas difícil de admitir. Mas, infelizmente, também ocorre entre os médicos diagnosticar erroneamente um problema de saúde mental como sendo físico, algo comum com a idade. “Sintomas médicos ou somáticos podem fazer parte de uma depressão, mas os idosos frequentemente atribuem esses sintomas erroneamente ao seu processo de envelhecimento”, explica Schlechter. “Isso pode levar a um reconhecimento tardio e, como resultado, sua depressão pode se manifestar de forma mais crônica”, acrescenta.”

Sabemos que, como acontece com a maioria das doenças, quanto mais cedo a depressão ou a ansiedade forem diagnosticadas, maiores serão as chances de tratamento. “Alguns fatores sociais também contribuem para a depressão. À medida que envelhecemos, somos frequentemente forçados a nos adaptar a mudanças em nosso status social, nossa identidade, seja por meio do trabalho ou de outras atividades na comunidade, e pessoas começam a morrer ao nosso redor. Podemos até sofrer abusos por parte de nossos cuidadores”, relata no artigo.
A depressão é difícil de tratar, não importando a idade, mas no idoso a situação é mais complicada por apresentar problemas físicos e mentais. O principal tratamento da depressão é a medicação e isso pode ter maior probabilidade de interação com outros medicamentos e provocar ocorrências de toxicidades. Por isso a necessidade de optar pela psicoterapia, incluindo a terapia cognitivo-comportamental e muitas outras, específicas para a situação de cada paciente. A saúde é um tesouro precioso em qualquer fase da vida e, na terceira idade, cuidar do corpo e da mente é essencial. A atividade de explorar novos interesses deve ser estimulada porque traz consigo um mundo de novas possibilidades e sensação de crescimento pessoal. O aprendizado contínuo é uma parte vital da saúde integrada, proporcionando senso de realização e satisfação. A saúde do idoso é profundamente influenciada pela qualidade de seus relacionamentos, fortes conexões sociais diminuem depressão, ansiedade e doenças crônicas, por isso a necessidade de fortalecer essas conexões com atividades comunitárias.
A realidade do envelhecimento chegou bem antes para a Província Franciscana da Imaculada do Brasil: 57,2% dos frades da Província têm mais de 60 anos. Como diz o Papa Francisco, não importa quantos anos tens, se ainda trabalhas ou não, se ainda és autónomo ou precisas de ser assistido, porque não existe uma idade para aposentar-se da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições. É preciso pôr-se a caminho e, sobretudo, sair de si mesmo para empreender algo de novo.
Encerro este texto com o capítulo 10 da Regra Não Bulada: “Se algum dos irmãos cair enfermo, os outros irmãos não o abandonem, a não ser que se constitua um dos irmãos ou mais, se necessário for, para que o sirvam como gostariam de ser servidos (cf. Mt 7,12); mas em extrema necessidade, podem enviá-lo a alguma pessoa que possa satisfazer a sua enfermidade. E peço ao irmão enfermo que por tudo renda graças (cf. 1Ts 5,18) ao Criador, e que, da maneira como o Senhor o quer, assim deseje estar, são ou enfermo, porque todos aqueles que Deus predestinou para a vida eterna (cf. At 13,48), ensina-os por estímulos dos flagelos e das enfermidades e pelo espírito de compunção, como diz o Senhor: “Eu corrijo e castigo aqueles que amo” (Ap 3,19).
Na jornada mundial da juventude, na missa de Aparecida, o Papa Francisco falou aos jovens, mas vale também para os idosos: “Gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.”
Frei José Antônio Duarte
Foto de capa e texto retirado do site: franciscanos.org.br