Reflexão do Evangelho – Quaresma

A parábola do “FILHO PRÓDIGO” ou do “PAI AMOROSO”

O Evangelho do Quarto Domingo da Quaresma traz por tema a misericórdia divina, que Lucas aborda em três parábolas: a “ovelha perdida”, a “moeda extraviada” e o “filho pródigo”. Todas culminam em clima de alegria, tanto pela recuperação da ovelha perdida e da moeda extraviada quanto pela volta do filho “que estava morto e voltou a viver”. Uma rápida análise dos personagens desta última parábola ajuda a compreendê-la melhor. Três personagens principais emolduram a cena: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. Os outros personagens estão indiretamente representados nestes três. O narrador, Jesus, centra o foco da parábola na imagem do Deus cristão: um pai que, diante do filho mais novo que deseja aventurar-se mundo afora e pede sua “parte da herança”, não se opõe, respeita sua liberdade, entrega a “parte que lhe cabe” e, prevendo de antemão o fracasso das aventuras do filho, passa os dias aguardando seu retorno ao aconchego do lar. Esta imagem do Deus que respeita a liberdade individual, que usa de misericórdia e acolhe festivamente quem tropeça é a imagem do Deus presente em todos os gestos, palavras e ações da vida pública de Jesus. Outro personagem é o filho mais novo, ou “pródigo”, filho que não se enquadra na lei tradicional da primogenitura que concede o direito de herança ao filho mais velho; esse filho que esbanjou seus bens em festas e atos ilícitos é simbolicamente representado na parábola pelos publicanos e pecadores, pessoas desprezadas por algumas facções religiosas no tempo de Jesus, mas que, segundo Lucas, são as que “se aproximam de Jesus para o escutar” (Lc 15,1). O terceiro e último personagem é o filho mais velho, figura quase ignorada nos comentários sobre esta parábola, mas central na crítica que Jesus dirige àquelas pessoas que se consideram “mais religiosas” do que as outras, simbolicamente representadas aqui pelos “fariseus”, facção religiosa judaica responsável por fazer cumprir a tradição, a moral e os costumes, e pelos “mestres da Lei”, “especialistas das coisas de Deus”, responsáveis por interpretar e ensinar as Escrituras. São estes dois grupos, simbolizados aqui no filho mais velho, que criticam Jesus porque “acolhe os pecadores e faz refeição com eles” (Lc 15,3). É este filho mais velho que, não obstante afirme sempre ter obedecido às ordens do pai, sempre ter trabalhado para ele, sempre ter respeitado a tradição de seu tempo, reclama da condescendência do pai, mostra-se incapaz de perdoar o irmão arrependido, nega-se a participar da festa em comemoração ao retorno “deste teu irmão que estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,32). O foco da parábola não parece estar, portanto, no filho mais novo, ou “pródigo”, que tropeça, se desvia do caminho e que, por sua vez, se arrepende e volta à casa paterna; o foco parece centrar-se no filho mais velho, ou seja, naqueles que embora considerando-se profundamente religiosos, fiéis cumpridores dos ritos e preceitos morais transmitidos pela tradição, são incapazes de misericórdia, de condescendência, de perdão, atitude que contrasta com a postura do “pai amoroso” apresentado por Jesus nesta parábola.

 

Frei Francisco Morás

Share on facebook
Share on twitter
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email
Share on print