A PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR DESONESTO
Esta talvez seja uma das parábolas mais emblemáticas e difíceis de interpretar. Isto porque, no desenvolvimento da narrativa, Jesus parece elogiar a “desonestidade” do administrador. Um olhar mais atento, porém, mostra que, de fato, é outra coisa que Jesus elogia.
Esta parábola se divide em três partes: a primeira apresenta a situação crítica do administrador; a segunda exibe um monólogo no qual ele considera sua difícil situação e elabora um plano de saída; e, na terceira parte, o administrador fala com os devedores de seu senhor e os faz falsificar suas dívidas, diminuído assim o valor da conta a pagar. Esta parte é a mais extensa, e é nela que acontece o crime propriamente dito, que, no entanto, não nos é simplesmente relatado, mas sim apresentado num diálogo entre o administrador e os devedores de seu senhor. Jesus poderia ter resumido assim esta parte: “E ele chamou os devedores de seu senhor e ordenou-lhes que escrevessem novos títulos de dívida, de modo que agora deviam muito menos azeite e muito menos trigo ao proprietário”.
Seja como for, trata-se aqui de uma fraude engenhosa cometida por um administrador que sabe se safar de uma situação embaraçosa. O homem aposta tudo: chama os devedores, os manda diminuir a soma da dívida, criando obrigações de “reciprocidade” e “hospitalidade” com pessoas que mais tarde poderiam apoiá-lo.
Obrigações desse tipo desempenhavam um papel extraordinário nas sociedades antigas. Elas não dispunham de um sistema de segurança ou de proteção social como grande parte das sociedades contemporâneas tem. Uma rede de “amigos”, naquele tempo, salvava vidas.
Mas, como terminaria essa história se fosse contada hoje? Provavelmente de forma legalista ou moralista: a fraude seria descoberta, o fraudador perderia tudo e acabaria na prisão. Moral da história: o crime não compensa!
O espantoso é que a história contada por Jesus nesta parábola não termina desta forma. Jesus acaba elogiando o administrador desonesto porque “agiu com esperteza” (Lc 16,8). É aqui que vem a parte mais importante da interpretação: Jesus não elogia o crime do administrador, mas a determinação com que ele evitou a sua própria ruína. E a evitou sendo calculista, inteligente e imaginativo, agindo com rapidez e eficácia. Por isto, e somente por isto, Jesus elogia o administrador desonesto.
Com isso Jesus parece querer dizer aos seus discípulos: “Deveis agir com a mesma determinação do administrador em relação ao Reino de Deus. Ele vos está sendo oferecido agora, hoje, mas só virá a vós se aplicardes vossa inteligência, vossa sagacidade, vossa imaginação, vossa paixão, enfim, se vos empenhardes de verdade em favor do Reino”.
Assim como o administrador não fez as coisas pela metade, assim como ele foi até o fim e agiu de forma consequente e eficaz, assim também Jesus recomenda aos seus discípulos que se empenhem em favor do Reino de Deus, servindo assim a um único Senhor: Deus!
Frei Francisco Morás