A experiência de participar da Missa Devocional ao São Carlo Acutis no Santuário de Santa Rita de Cássia

Toda segunda sexta-feira do mês, o Santuário de Santa Rita de Cássia, em Curitiba, no Estado do Paraná, promove a missa devocional ao São Carlo Acutis. O santuário guarda a relíquia de 1º grau (fios de cabelo dele) e durante a missa é exposta ao público (podendo tocar nela, inclusive). No dia 09 de janeiro estive presente na missa e relatarei brevemente a experiência.

O Evangelho do dia 09 foi sobre a cura do leproso (Lucas, 5, 12-16). Na homilia, o Padre Nilson Helmann explicou que na época de Jesus a lepra era mais do que uma doença física, era considerada um castigo divino que resultava em exclusão social. O leproso perdia sua identidade, sua dignidade e o convívio com os familiares e amigos, tornando-se invisível para a sociedade.

Ao se deparar com Jesus, o leproso não pediu apenas a cura, mas a ‘purificação’, que significava a possibilidade de voltar a prestar culto a Deus, entrar no templo e ser inserido novamente na comunidade. Jesus, ao deixar-se tocar pelo leproso, revela um Deus que não tem medo das nossas doenças e fragilidades, ou daquilo que nos ‘desfigura’ como seres humanos.

O Padre celebrante apresentou Carlo Acutis como exemplo para nossa sociedade. O jovem beato que subiu aos altares santos vestindo calça jeans e tênis deixou uma frase que ressoa como uma importante reflexão para nós nessa era do silício: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias”.

Em um mundo onde o comportamento humano é cada vez mais moldado por algoritmos e tendências virais, a busca pela autenticidade cristã tornou-se um ato de resistência. Na homilia proferida no Santuário Santa Rita de Cássia, o Padre Nilson Helmann nos convidou a olhar para Carlo Acutis não apenas como o “Ciberapóstolo”, mas como alguém que soube romper as barreiras do isolamento para encontrar o Cristo no próximo.

Hoje, experimentamos uma nova forma de ‘lepra’ moderna invisível. O teórico Eli Pariser define a “Bolha de Filtros” como um isolamento algorítmico onde somos alimentados apenas com o que já confirmamos. Essa ‘bolha’ algorítmica nos faz acreditar que estamos conectados, enquanto, na verdade, estamos apenas cercados por espelhos. O isolamento digital muitas vezes nos torna incapazes de lidar com o diferente, transformando o “outro” em um inimigo ou em um dado irrelevante.

Como o Papa Francisco alerta na encíclica Fratelli Tutti (2020), vivemos em uma “ilusão de comunicação”, onde o narcisismo digital nos faz crer que o mundo termina onde acaba a nossa tela. Ele alertava que a conexão digital não é o mesmo que comunhão. Podemos estar conectados com o mundo inteiro e, ao mesmo tempo, completamente isolados de quem está ao nosso lado.

Do ponto de vista cristão, essa bolha de filtros de Pariser é o oposto da catolicidade, ou seja, do que é universal. Enquanto a bolha nos fecha, a fé nos convida a sair de nós mesmos para encontrar o outro (a igreja em saída que o Papa tanto pediu).

São Carlo Acutis criou um site para catalogar milagres eucarísticos. Ele não usava a rede para autopromoção (o que alimenta o ego na bolha), mas para apontar algo maior que ele mesmo. Na prática digital, Carlo Acutis nos mostra que as redes sociais e a internet devem ser um caminho para a paróquia, para o grupo de jovens, para o serviço aos pobres, e não um substituto. Dessa forma, não podemos ser cristão de ‘Wi-fi’ que não conhecem o rosto do irmão que senta ao seu lado no banco da Igreja.

Na celebração devocional, a palavra de Deus e a vida de Carlo nos convidam a um movimento de ruptura: sair do isolamento da “bolha” para o toque da comunhão e da purificação, algo que as máquinas e os chips da tecnologia não podem nos dar.

As ‘bolhas de filtros’ e a era do silício processam o que nós “queremos” ver, mas a fé nos revela o que nós “precisamos” ver, que é o próximo, o pobre, e o leproso.

São Carlo Acutis (o santo millenium) nos mostra o nosso campo de missão: sermos cristãos que usam a tecnologia não para reforçar bolhas, mas para estender as mãos. Romper a bolha significa, muitas vezes, “tocar” naqueles que o sistema (ou o algoritmo) prefere que ignoremos.

Carlo Acutis nos mostra também que a Eucaristia — que ele chamava de sua “estrada para o céu” é o oposto da bolha. A eucaristia une a todos, sem filtros. E pela caridade ‘real’ e missionária ele sabia que o “clique” na internet só tem valor se preparar o coração para o “toque” no irmão.

Para não morrermos como ‘fotocópias’ dos algoritmos, precisamos da coragem de Jesus para tocar as lepras de hoje: a solidão, o ódio digital e o vazio existencial. Como o Papa Francisco nos exorta, a Igreja deve ser “em saída”.

No mundo digital, “sair” significa furar a bolha, buscar o diálogo com o diferente e não permitir que a nossa fé seja reduzida a um conteúdo de entretenimento.

Que a intercessão de São Carlo Acutis nos ajude a transformar nossas redes em pontes e nossa vida em um “original” de Deus. Que saibamos, como o leproso do evangelho de Lucas, reconhecer que precisamos de purificação — não apenas dos nossos pecados, mas do nosso egoísmo que nos faz querer viver isolados em nossas próprias certezas.

 Ana Mazzeto
Foto de capa: Vatican News

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