Reflexão do Evangelho – Quaresma

TRANSFIGURAÇÃO COMO VISÃO ANTECIPADA DA GLÓRIA DE JESUS

Conhecido tradicionalmente como a “transfiguração de Jesus”, o episódio do Evangelho deste 2º Domingo da Quaresma ocorreu após a pregação de Jesus na Galileia, a caminho de Jerusalém, às vésperas da Páscoa judaica e de sua condenação, morte e ressurreição. Pedro, Tiago e João, os mesmos que estarão com ele na agonia no Getsêmani, são levados para uma “alta montanha”, que posteriormente a tradição identificou como sendo o monte Tabor. Segundo Lucas, “enquanto [Jesus] rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”. Diferentemente de Marcos e Mateus, que descrevem um Jesus “transfigurado” (literalmente “metamorfoseado”), Lucas, mais sóbrio, evita este termo de origem pagã: ele simplesmente diz que os discípulos “viram a glória de Jesus” (Lc 9,32). E, à semelhança dos demais evangelistas, Lucas apresenta Jesus conversando com Moisés e Elias, respectivamente representantes da Lei e dos Profetas. Segundo a narrativa lucana, o tema da conversa girava ao redor da “morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém” ou, segundo a tradução deste mesmo texto na Bíblia ecumênica, sobre “a partida de Jesus, que ia se realizar em Jerusalém”, isto é, sobre os eventos-chave do Mistério Pascal: paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus. Esta “partida” (êxodos em grego) é uma referência simbólica ao Êxodo de Jesus que, qual novo Moisés, logo mais irá ao encontro definitivo com o Pai. Pedro, maravilhado com a cena da transfiguração, sugere eternizá-la: “É bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas”. Entretanto, Jesus sabe que não há glória sem passar pelos caminhos da história; e também tem consciência de que sua história não se decidirá no alto da montanha da transfiguração, mas em Jerusalém, pois é lá que terá lugar seu processo de condenação, morte e ressurreição. Lucas, além de apresentar Jesus como o novo Moisés, também elenca uma série de semelhanças e diferenças simbólicas entre a transfiguração, no Tabor, e a agonia, no Horto das Oliveiras: tanto na transfiguração quanto no Horto, Jesus rezava (Lc 9,28 e 22,41); enquanto na transfiguração dois homens (Moisés e Elias) falam com Jesus sobre a paixão e a morte (Lc 9,31), na agonia é um anjo que conforta Jesus em sua paixão (Lc 22,43); se na transfiguração o aspecto de Jesus é de esplendor glorioso (Lc 9,29), na agonia gotas de sangue escorrem de seu corpo (Lc 22,44); mas tanto na transfiguração quanto na agonia os discípulos dormem (Lc 9,32 e 22,45), sinal de que ainda têm muito a aprender! Mas, qual seria o objetivo último do relato da transfiguração? A última intenção é apresentá-la como imagem do destino final de um Jesus vencedor da morte, ressuscitado, resplandecendo na glória do Pai. Trata-se, pois, de uma visão antecipada do final glorioso de Jesus. Trata-se de uma espécie de “antessala”, de “visão prévia”, de “antecipação” do destino final de Jesus. E não só de Jesus, mas também do destino final de todos os que ouvem e colocam em prática a voz vinda da nuvem no relato da transfiguração deste domingo: “Este é o meu Filho, escutai o que ele diz”!

Frei Francisco Morás

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