Niterói, 06/02/2012
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TEXTOS/ARTIGOS

Sábado santo - Tempo de esperar


O sábado santo é o tempo do silêncio e da espera, quando tudo indica que nada  possa acontecer, quando o que é resta é a saudade daquilo que parece perdido e incerteza do que possa chegar. Sábado que tem a ver com rotina e hábito, e,  ao mesmo tempo, sábado que faz brotar uma confiança sem provas. Crer sem saber, desejar sem exigir, buscar sem prazo. É o tempo dos discípulos assustados, de Maria Madalena inquieta... o tempo da calma insegura dos que o haviam condenado. Muitas vezes vivemos nessa modalidade de tempo quando as feridas já estão distantes, mas  a cura não chegou ainda totalmente;  quando a esperança parece se chocar com a realidade; quando a dor já não queima, mas está aí, quando a ilusão parece domesticada ou rendida ( cf. José María Rodríguez Olaizola, SJ, Al paso de  Dios. Claves de Semana Santa, in Sal Terrae 95 (2007), p. 206).

Nada mais oportuno, como meditação do Sábado santo, do que  a leitura ruminada desta página de uma antiga homilia no grande Sábado:
Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Grande silêncio porque o rei está dormindo;  a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos.  Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos do sofrimento.


O Senhor entrou onde eles estavam levando em suas mãos a arma a cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração:  “O meu Senhor está no meio de nós”. E o Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E, tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentro os mortos, e Cristo te iluminará”.


"Eu sou teu Deus, por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo e, com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão:  “Sai!”; e aos que jaziam nas trevas: “Vinde para a luz; e aos entorpecidos: “Levantai-vos!”

Eu te ordeno: “Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te obra de minhas mãos: levanta-te ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.

Por ti, eu, teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei a tua condição de escravo. Por ti, eu que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem  apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que me deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim, fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.


Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê em minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme  a minha imagem, tua beleza corrompida.


Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti, para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê  minhas mãos  fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, que outrora estendeste  tuas mãos para a árvore do paraíso.


Adormeci na cruz, e a lança penetrou no meu lado, por tua causa, pois dormiste no paraíso e,  de teu lado,  fizeste surgir Eva; eu, porém, já não te coloco no paraíso, mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvores, símbolo da vida; eu, porém que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem: ordeno agora que eles te adorem como Deus,  embora tu não sejas Deus.


Está preparado o trono dos querubins, prontos a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, prepara do banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade.

Lecionário Monástico, II, P.  606-608
Frei Almir Ribeiro Guimarães

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