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Artigos › 30/03/2019

Parábola para nossos dias

Em nenhuma outra parábola Jesus conseguiu penetrar tão profundamente no mistério de Deus e no mistério da condição humana. Nenhuma outra é tão atual para nós como esta do “pai bom”.

O filho mais moço diz ao pai: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”. Ao reclamá-la, está de alguma forma pedindo a morte do pai. Quer ser livre, romper amarras. Não será feliz enquanto seu pai não desaparecer. O pai consente com seu desejo sem dizer nenhuma palavra: o filho deve escolher livremente seu caminho.

Não é esta a situação atual? Muitos querem hoje ver-se livres de Deus, ser felizes sem a presença de um Pai eterno em seu horizonte. Deus deve desaparecer da sociedade e das consciências. E, da mesma forma que na parábola, o Pai mantém silêncio. Deus não coage ninguém.

O filho parte para “um país distante”. Precisa viver longe de seu pai e de sua família. O pai o vê partir, mas não o abandona; seu coração de pai o acompanha; cada manhã o estará esperando. A sociedade moderna se afasta sempre mais de Deus, de sua autoridade, de sua lembrança … Não está Deus nos acompanhando enquanto o vamos perdendo de vista?

Logo o filho se instala numa “vida desordenada”. O termo original não sugere apenas uma desordem moral, mas uma existência insana, descontrolada, caótica. Em pouco tempo sua aventura começa a transformar-se em drama. Sobrevém uma “fome terrível” e ele só sobrevive cuidando de porcos, como escravo de um estranho. Suas palavras revelam sua tragédia: “Eu aqui morro de fome”.

O vazio interior e a fome de amor podem ser os primeiros sinais de nosso afastamento de Deus. Não é fácil o caminho da liberdade. O que nos falta? O que poderia encher o nosso coração? Temos quase tudo, então por que sentimos tanta fome?

O jovem “entrou em si mesmo” e, aprofundando-se em seu próprio vazio, recordou o rosto de seu pai, associado à abundância de pão: na casa de meu pai eles “têm pão” e aqui “eu morro de fome”. Em seu interior desperta o desejo de uma liberdade nova junto a seu pai. Ele reconhece seu erro e toma uma decisão: “Pôr-me-ei a caminho e irei procurar meu pai”.

Pôr-nos-emos a caminho para Deus, nosso Pai? Muitos o fariam se conhecessem este Deus que, segundo a parábola de Jesus, “sai correndo ao encontro do filho, lança-se ao seu pescoço e põe-se a beijá-lo efusivamente”. Estes abraços e beijos falam de seu amor melhor que todos os livros de teologia. Junto a ele sempre poderemos encontrar uma liberdade mais digna e feliz.

 

José Antonio Pagola
Fonte: site Franciscanos

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