Niterói, 31/07/2010
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NOTÍCIA

04/03/2010

Itinerário a ser percorrido no tempo da quaresma


Francisco apreciava enormemente a expressão do Novo Testamento: Somos peregrinos e forasteiros neste mundo. (...) Ora, o tempo da quaresma faz a delícia dos que têm a alma de peregrinos.

Há tempo para tudo. Tempo para nascer, para viver e para morrer. (...) E agora há o tempo da quaresma... Sim, o tempo da quaresma e logo em seguida, o tempo da páscoa. Não se trata apenas de um formalismo, mas de um itinerário a ser percorrido por aqueles que querem ser discípulos do Senhor que ressuscitou e vive em nosso meio. Desnecessário dizer que os dias que estamos vivendo, de quarta-feira das cinzas e do pó até quarta-feira da Semana Santa, constituem um tempo propício e favorável. Temos sempre certo pudor em ficar repisando coisas que todos dizem e repetem à saciedade: conversão, mudança de vida, vida nova, penitência. Todas essas palavras, aos ouvidos de muitos de nossos contemporâneos, podem parecer sem sentido e vazias. Apenas um sopro da voz. Mas não é possível fugir do conteúdo dessas palavras. Talvez o único tema necessário a ser vivido e estudado seja esse, ou seja, o da transformação do coração. Quaresma tempo de conversão.

Foi assim, dizia Francisco, que tudo começou. “Um dia, eu fui levado a fazer penitência, a mudar o coração. Um dia o doce e o amargo lutaram e pelejaram. No meio da contenda havia um leproso que me repugnava. Eu estreitei essa chaga ambulante e fétida junto de meu peito e passei a gostar do que talvez não fosse tão apetecível... Mudei... Pouco depois deixei de lado a maneira de ver as coisas: minhas camisas de seda, meu charme, sim, todo o charme que eu esbanjava, meu desejo de vitória, e ao longo da minha vida tentei ser um discípulo daquele que vivera pequenamente e que havia tocado as fibras mais íntimas de meu interior... Comecei a deixar o mundo até o dia em que  o Senhor tirou minha alma desta prisão”. Viver a quaresma é viver um itinerário de conversão, itinerário de peregrinos e forasteiros.

Cinza e pó em nossas frontes, tais quais somos. Bons e maus. Santos e... demônios. Gente que busca as estrelas do céu e toca com os pés a lama do caminho. Nunca me esquecerei do céu de Lubango, em Angola, céu sem nuvens e à noite... estrelas que pareciam uma festa no deserto... Ouvimos, agora, neste tempo da quaresma, mais uma vez: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Lutar até o fim. Fazer o possível e o impossível para buscar a pérola preciosa e o tesouro escondido no campo da vida, no tempo que passa, antes do fim da caminhada, no tempo propício, fazendo das tripas coração... Um pouco de poeira na fronte e o coração desejoso de começar tudo outra vez. (...) Lembro-me da história que li num livro romanceado. Um bispo tinha uma irmã que vivia em Ruanda... e indo lá viu sua irmã acariciando o rosto de um velho que morria como se acaricia um anjo de Deus. Poucos contemplaram o amor daquela mulher... Fazia isso sempre, sem plateia, sem gritos de vitória. O eclesiástico se ajoelhou e, talvez, pela primeira vez, encontrou Deus a respeito do qual tanto escrevera e falara, ele com suas vestes roxas episcopais. (...) Somos peregrinos e viandantes.

Depois das tentações, Marcos diz, que os anjos serviam a Jesus. O paraíso se fazia presente. No itinerário da quaresma a primeira etapa é sempre a da tentação. Jesus é tentado no deserto. Tentação e deserto se conjugam. Encantadora a expressão de Marcos ao afirmar que os anjos do céu serviam a Jesus e que os animais bravios estavam por perto numa celebração paradisíaca. Aquele que confia no Senhor, que nele se joga, esse cria um mundo novo. Vencidas as tentações, o coração se aquieta e a paz domina. Difícil é a arte de escolher. E, no entanto, vivemos escolhendo... (...)

E Jesus sobe ao Monte. No alto da montanha, esse rosto humano procura o rosto da Luz. A Luz chega e diz: “Este é o meu Filho, muito amado... escutai-o!” Ele tinha as vestes tão brancas que nenhum lavandeiro da terra conseguia fazer tão brancas... Esse Jesus tão simples, esse menininho das palhas, esse Gesú Bambino, é a luz... Os peregrinos e forasteiros da quaresma  encontram-no aqui e ali... Na recitação do Oficio os confrades tão frágeis, tão necessitados de tudo... e por detrás dessa comunidade tão frágil, está a força da luz de Cristo... quando dois ou três se reúnem, sejam eles bons ou maus, o Senhor está lá.... é preciso ir além do rosto franzido e da palavra que fere.  A perseverança até o fim nos mostra o semblante do Filho luminoso. A mulher que grita de dor pela morte da filha, o homem que cuidou 17 anos de uma filha em coma, o menino palestino acolhido por uma família de israelitas bons, todos esses poderão ver, no meio da bruma, o rosto transfigurado de Cristo.

(...) Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho Unigênito... Bem no coração da quaresma os viandantes e peregrinos recebem esta mensagem tonificante... num mundo de individualismo, de salve-se-quem-puder, num mundo em que muitos têm a impressão de não contar  há essa palavra de João que nos arranca da solidão... Deus nos amou... e nos amou até o fim... e olhando para o alto, para aquele que foi elevado entre o céu e a terra vemos nascer dentro de nossos corações uma esperança... Cada ser humano é amado por ele... amado de verdade.... No tempo da quaresma sentimos vontade de sentar num canto e contemplar... Damo-nos conta que o Filho não foi enviado para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Esse Filho que aderiu ao Pai colocou sua vontade na vontade do Pai, esse filho de Maria que olhou os lírios dos campos, que acariciou o rosto das crianças, que acolheu com emoção a fé da hemorroíssa, que olhou nos olhos do jovem rico, que foi suspenso entre o céu e a terra, que teve seu olhar turvado pelo suor, pelo sangue que descia de sua testa, aquele que experimentou uma imensa solidão até o fim, esse nos amou. (...) Há uma porta aberta... Não há motivos para desesperar... Para João, dizem os exegetas, a cruz é o trono de glória, mas também o trono do juízo... o que foi feito a um desses pequeninos a mim foi feito.

Antes da Semana Santa, ouvimos o Mestre dizer: Chegou a hora em que o Filho do Homem será glorificado”. Na caminhada da quaresma, os peregrinos e forasteiros, se colocam diante daquele que vê chegar sua hora. Cristo não teve um destino cego. Não se pode falar em fatalismo. Ao longo de seu viver, nas coisas de todos os momentos, na história de seu povo, nas convulsões de aqui e de ali, no tempo do poder romano, Cristo Jesus foi sentindo que chegava a hora, a hora da entrega, sem restrições. João, o evangelista, nos fala da hora de Jesus num duplo sentido: hora de ser materialmente  levantado da terra, hora de morrer, de sair das coisas pequenas, do mundo-mundano, sentir que com a elevação da cruz ele estava sendo exaltado para a suprema forma de amor.  Antes, na hora do jardim, ele havia pedido que, se fosse possível o Pai o afastasse daquela hora. Mas a hora se avizinhava. Outros, segundo João, tinham querido que, nas bodas de Cana, ele se manifestasse plenamente. Mas ali ainda não tinha chegado a sua hora. Ele diz à mãe: “Minha hora ainda não chegou”. A hora de Jesus é a hora do sim definitivo. Lá, no deserto dos começos, ele havia dito já que aderia ao Pai... a vida foi passando, os dias chegando e morrendo, as coisas se aceleravam e a luta entre as luz e as trevas se acirrando. Chegara a hora das trevas, mas também a hora da luz. Quando o Filho do Homem foi exaltado no alto da cruz, a luz venceu as trevas. E no ato de entrega, da oferenda da vida ao Pai pelos homens que o Pai tanto amava, Cristo foi vivendo já o começo de sua glorificação. Quando ele fosse exaltado, atrairia tudo a si.  Esse molambo do alto da cruz, esse condenado muitas vezes representado como que sentado num banco no alto da cruz, esse Jesus ressuscitou e da cruz brotaram luzes de glória, segundo a perspectiva de João.

Agora só nos resta entrar com Jesus na Semana das Semanas, viver os passos de Jesus no dias da Semana santificada, semana da ceia e do lava pés, da desolação e da cruz, do silêncio do sábado santo, do dia do grande descanso e da manhã luminosa da luz pascal... Ele, o nosso amado, venceu o mundo... aleluia.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

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