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Notícias gerais › 08/11/2019

Negar a ressurreição com a vida

 “Alguns saduceus, que negam a ressurreição” (Lc 20,27b).

Negar a ressurreição não é mera recusa a abraçar uma doutrina ou um conjunto de ensinamentos, nem debater o tema a partir do mundo dos conceitos ou das ideias. Desta forma, a questão casuística posta pelos saduceus, ainda que pudesse ter um tom de certo deboche ou incredulidade, representava a face mais inocente e inofensiva de uma postura discordante com a proposta de Jesus Cristo.

A versão mais prejudicial de tal negação, com certeza, é o estado de arrogância e prepotência a que pode chegar o ser humano quando se julga senhor da própria vida e dono da única verdade absoluta que deseja impor aos outros. Quem age assim, não nega somente a ressurreição, mas nega a vida a quem ameaça seus planos egoístas e autocentrados. Esta negação autoafirmativa certamente já havia contaminado o coração do rei cruel apresentado no trecho do 2º Livro de Macabeus (2Mc 7,1-2.9-14) . Com requintes de covardia e crueldade, massacrou sete filhos e uma mãe movido pelo mero capricho de fazerem-nos pensar exatamente como ele pensava. Sua sanha era, por teimosia, orgulho e soberba, colocar-se como dono da vida daqueles que havia feito prisioneiros. Empatia, compaixão, solidariedade e respeito eram palavras que haviam sido banidas de seu vocabulário e de suas práticas. Pobre homem, morto já em vida.

A postura que parece o cume da crueldade e é narrada em um episódio do Antigo Testamento, poderia, falsamente, ser considerada por nós algo muito distante no tempo e no espaço, coisa de “gente primitiva”, algo que aconteceu no “muito antigamente da existência”, quando o ser humano era menos evoluído. Triste engano… A negação da ressurreição e da vida, e consequente negação de Cristo, continua atual e tem saltado aos olhos como prática, inclusive, de muitos que se autodenominam seguidores do Ressuscitado.

Mais do que em palavras, tal postura destruidora tem se mostrado em práticas marcadas pela ofensa, pela mentira e pela exclusão. Tem sido, inclusive, plataforma política de quem, em nome de Deus, chegou ao poder para garantir e perpetuar os próprios privilégios à custa da morte e do massacre dos pequenos, daqueles que pensam diferente, de quem sonha um mundo mais justo e igualitário. Os frutos nefastos desta mórbida opção pela morte, infelizmente, são numerosos. Não é difícil encontrá-los, pelo que não vou tomar o precioso tempo do estimado leitor declinando os muitos sinais de morte que têm nos deixado tristes e feridos. O mais importante é não esmorecermos e renovarmos a certeza de que, caminhando conosco, está o Deus da Vida, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Frei Gustavo Medella

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